Parábola da semente

"Saiu o semeador a semear..." (Mc 4,3)



domingo, 17 de março de 2019

Símbolos e Mensagem de Páscoa

O que é a  Páscoa?
Páscoa é a solenidade da ressurreição de Jesus Cristo. Jesus, que foi crucificado e morto na sexta-feira e teve seu corpo colocado em um sepulcro. Ressuscitou e está vivo no meio de nós. A palavra Páscoa é de origem hebraica ( Pessach), e significa passagem, ou seja, passagem da morte para a vida.
Nos Evangelhos há vários textos que narram a Ressurreição:
Mc 16,1-8
Lc 24,1-12
Jo 20,1-10
Mt 28,1-10

Símbolos da Páscoa

LUZ

As luzes caracterizam as celebrações pascais. Nas comunidades religiosas e Igrejas, no sábado da vigília pascal com o fogo novo acende-se uma grande vela denominada círio pascal e com ele acendem-se todas as velas das pessoas presentes. O círio é símbolo de Jesus Cristo que comunica sua luz a todos os povos.

CÍRIO PASCAL

No círio há duas letras gregas -alfa e ômega - , a primeira e a última letra do alfabeto grego. O alfa representa o princípio e o ômega, o fim. Jesus disse: "Eu sou o princípio e o fim". E São Paulo dirá: "Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre" (Hb 13,8).
No círio há ainda a indicação dos quatro algarismos do ano que está em curso, simbolizando a presença viva de Jesus junto a todos os povos do mundo, com união de fé e de esperança.
Neste ano os números serão 2011.

PEIXE

Peixe é um dos símbolos mais antigos. Os primeiros cristãos, ao se referirem a Jesus Ressuscitado, utilizavam a palavra peixe, escrita em grego: ICTYS. Assim, nas casas, nas roupas, nas conversas e nas catacumbas, a figura e a palavra peixe são encontradas. A relação com a Páscoa se acha neste detalhe da palavra  que aparece nos encontros de Jesus com os apóstolos após a Ressurreição (Jo 21,9) e (Lc 24,42-43).

SINOS
Os sinos festivos, que repicam na noite da Ressurreição, expressam de maneira solene e alegre no canto do Aleluia. Ns comunidades onde não existem sinos, utilizam-se CDs com gravações lindas de músicas com sinos. 

VESTES BRANCAS
As vestes brancas e paramentos dos que presidem as celebrações, que se usam na Páscoa, recordam, em primeiro lugar os anjos, "personagens de vestes fulgurantes" (Lc 24, 4), que anunciaram a Ressurreição.

ALELUIA
O Cântico do Aleluia (HALLELUI-YAH ) que significa "louvor ao Senhor", é um dos símbolos mais expressivos da alegria da Ressurreição. É bastante conhecido o Aleluia de Haendel. Em todas as celebrações litúrgicas cantam-se Aleluias.

GIRASSOL

Maria Madalena encontrou Jesus ressuscitado num jardim. As flores alegres simbolizam o clima festivo da Páscoa. Dentre as flores, o girassol é um dos símbolos mais ricos em conteúdo.
Sempre
voltado para o sol, do nascente ao poente, o girassol é símbolo dos cristãos, que vivem sua fé na Ressurreição, voltados e recebendo luz do Sol-Cristo. De Cristo Luz recebem força, calor, motivações e vida.

O CORDEIRO


Simboliza Cristo, oferecido em sacrifício em favor do seu rebanho. Jesus é apresentado por João Batista como o Cordeiro de Deus que salva. E também, Jesus se diz o Bom Pastor.

O PÃO E O VINHO

Simbolizam o corpo e o sangue de Jesus, oferecido aos seus discípulos, na Ceia Pascal. Veja o texto bíblico em Marcos 14,22-26.

OVO DE PÁSCOA

O ovo é um símbolo de Vida nova, de vida que está para nascer. Lembra o túmulo fechado em que Jesus morto foi colocado. Três dias depois Ele  ressuscitou. Disse o Anjo às mulheres: "Ressuscitou, não está aqui" (Mc 16,6).


COELHO

O coelho é um animal bastante fecundo, capaz de gerar em grande quantidade.
É símbolo da Páscoa que acontece dentro da comunidade também fecunda de vida da graça de Deus. Esta fecundidade fundamenta-se nas palavras de Jesus Ressuscitado aos apóstolos: "Ide por todo o mundo, proclamando a boa notícia a toda a humanidade!" (Mc 16,15).

CARTÕES

Os cartões levam mensagem de alegria e de vida para quem os recebe. Simbolizam os mensageiros (anjos) que anunciaram a ressurreição de Jesus. Quem envia um cartão de Páscoa é uma mensageiro desta Vida Nova! Podem ser enviados cartões impressos ou virtuais. Acesse e envie cartões com belas mensagens em: http://www.paulinas.org.br/cartoes/plHomeCartoes.aspx?idTipo=54

MÚSICA
As alegres músicas de Páscoa desde as clássicas até as populares comunicam também o anúncio feliz da Vida que é Jesus. Recordem-se: Aleluia de Haendel, as inúmeras Bênçãos Pascais, no CD Ação de Graças no Dia do Senhor - Ciclo de Natal- Ciclo Pascal- Tempo Comum. Acesse: 
O CD Cuida bem da Palavra, Pe. Zezinho, scj traz a música Ressurreição que está num clip neste blog.



MENSAGEM

É PÁSCOA!
Páscoa é passagem!
Passagem para onde?
As autoridades do tempo
pensavam ter eliminado a comunicação com Jesus.
Calaram sua voz.
Paralisaram seus gestos.
Anularam suas expressões e o colocaram num túmulo.
Apagaram sua presença.
Poucos perceberam.
Poucos creram, mas na verdade Jesus passou para a "outra margem"!
Jesus criou uma EXPRESSÃO NOVA DE VIDA!
A "outra margem" é a estrada de Emaús
por onde caminha com dois discípulos.
A "outra margem" é a praia do mar da Galileia, onde,
VIVO, ele prepara o peixe
para a partilha com os amigos.
A "outra margem" é a presença viva no Cenáculo,
onde rompe os limites das portas
e dos corações fechados pelo medo!
A "outra margem" é
construção de vida que se faz hoje,
a partir da comunicação libertadora.
Hoje é a passagem para a "outra margem"!
Hoje é PÁSCOA!


(Ir. Patrícia Silva, fsp)

sábado, 16 de março de 2019

Teatrinho de Páscoa

A borboleta Liz


(teatrinho de Páscoa)

 Cenário: Jardim, flores, e entre elas várias crianças disfarçadas: uma vestida de girassol, outra vestida de coelhinho com grandes orelhas, outra, como cordeirinho. Participarão ainda: uma que simboliza a luz, outra chega tocando sinos, um anjo traz os cartões, outra, os ovos de Páscoa.
Música - A páscoa chegou alegre
A Páscoa chegou alegre
Como esta cantiga de amor.
As flores já enfeitaram
A caminho de nosso Senhor.
Parabéns pela sua vida, Jesus,
Você já ressuscitou.
Felicidade sem fim
Aleluia! Aleluia!
Borboleta Liz(cantando e dançando passa pelo palco de um lado para o outro) Felicidade sem fim! Aleluia, Aleluia!  Eu sou feliz, muito feliz!  (falando) Feliz! Feliz porque vivo. Nasci de um casulo. Após a minha transformação completa, já adulta, rompi com o  casulo  e esperei horas, para que as minhas asas úmidas  e encolhidas se endurecessem e eu pudesse voar. Agora, vôo até a 20km por hora. Por isso... (cantando) Eu sou feliz, muito feliz!
(Entra um cordeirinho, falando para a borboleta:)
Cordeirinho - Olá, borboleta Liz! Por que tanta felicidade?
Borboleta - Porque é Páscoa  e quem me vê, entende o que é a ressurreição.
Cordeirinho - Como assim?
Borboleta - Eu fiquei no casulo apertadinho que se abriu quando era hora de eu nascer. Com Jesus foi algo parecido.
Ele ficou no túmulo e, três dias depois de sua morte, ressuscitou!
Cordeirinho - Eu também sou símbolo da Páscoa.
Borboleta - Também você?
Cordeirinho -  Sou o símbolo mais antigo da Páscoa.
Borboleta - Por quê?
Cordeirinho - Recordo a aliança feita entre Deus e o povo judeu. No Antigo Testamento, a Páscoa era celebrada com os pães ázimos, ou seja, sem fermento, e com o sacrifício de um cordeiro em recordação do grande feito de Deus em favor de seu povo: a libertação da escravidão do Egito.
Borboleta - Ah! Então Páscoa significa libertação?
Cordeirinho - Isso mesmo! Também Jesus foi apresentado por João Batista como o cordeiro de Deus, aquele que foi sacrificado para tirar o pecado do mundo.
(Sons de sinos)
Borboleta - A Páscoa é uma grande festa. Parece que é  isso que os sinos estão dizendo.
Sinos - Alegria, minha gente! Ninguém pode ficar triste quando Jesus ressuscitado disse: “Estou com vocês todos os dias. Sempre!” Alegria! Muita alegria! Venham todos celebrar a Páscoa!  (dá voltas no palco, tocando o sininho e fica do lado).
Borboleta -  Uma grande festa, alegre e cheia de cores, não é amigo girassol? (pára na frente do girassol).
Girassol -  Hoje, as casas estão enfeitadas com girassóis. A cor amarela é a cor do sol, simboliza muita vida.
Borboleta - E Páscoa  é vida?
Girassol - Na Páscoa, Jesus é o grande sol que venceu a escuridão, venceu as trevas. E todas as pessoas que têm fé, são como o girassol. Estão sempre voltadas para o Sol que é Jesus ressuscitado. Estas pessoas também expressam muita vida!
(Coelhinho aparece saltitando).
Coelho - Muita vida é com a gente mesmo! He hehehehehe!  (corre de um lado para outro).
Borboleta - Como, coelhinho? Você também é símbolo da Páscoa?
Coelho -  He hehehehe! Claro. Todas as crianças sabem disso, borboleta Liz.
Borboleta - Eu sei que você é um grande comilão de cenouras!
Coelho - Na verdade, preciso mastigar bem os alimentos. Meus dentes crescem sem parar. Preciso
Borboleta - Mas, é por isso que você simboliza da Páscoa? Não entendi.
Coelho - Não, borboleta Liz? É minha capacidade de criar muitos filhos.
Borboleta - E Páscoa é criar muitos filhos?
Coelho - Em certo sentido é.  Na Ressurreição Jesus disse aos apóstolos: “Vão pelo mundo inteiro e levem o Evangelho a todas as pessoas”. Assim nasceu a Igreja  que está no mundo inteiro! Todos os domingos a comunidade se reúne para comemorar a Páscoa em Jesus Ressuscitado.
(entra uma criança com uma grande vela ou o círio pascal).
Borboleta - Que festa mais linda! E que linda  vela!
Vela - Cristo é a luz do mundo. Foi ele mesmo que disse isto, amiga Liz.
Borboleta - E que significam as letrinhas “A” e “Z” que estão nesta vela?
Vela - O “A” não é a primeira letrinha do nosso alfabeto? E a última é o “Z”.
Borboleta - Porque estão na vela grande?
Vela - Para lembrar que Jesus é o começo e o fim de tudo. Ele ilumina tudo. Acaba com toda escuridão!
Borboleta - Viva a luz de Cristo! Mas está faltando um símbolo, não é crianças? Um do qual gostamos tanto? Qual será? ( Procura, procura no jardim).
Anjo (Entra feliz  e vai anunciando) - Feliz Páscoa! Boas festas! Jesus Ressuscitou!
Borboleta - Que lindo anjo! Você é que estava lá no dia da Ressurreição!?
Anjo - Eu mesmo! Estavam tristes aquelas mulheres! Pedro e João também! Era preciso que eles soubessem que Jesus estava vivo!
Borboleta - Você é um anjo jornalista, não é?
Anjo - Sou um anjo mensageiro da boa notícia. E hoje, as pessoas que enviam um cartão virtual ou impresso desejando Feliz Páscoa, são também um anjo como eu.
Borboleta - Entendi. Os cartões também são símbolos da Páscoa!
Anjo - (distribui pequenos cartões Páscoa para as pessoas presentes. 
Crianças, vamos enviar nossas mensagens a todo o mundo! Gritem comigo para todos ouvirem: Feliz Páscoa! Boas Festas! Jesus Ressuscitou!
Borboleta - Viva! Jesus está vivo no meio de nós! Que coisa bonita é a Páscoa! Não seria bonita se Jesus não tivesse ressuscitado! Mas o que está escondidinho aqui no jardim? (abaixa-se e levanta uma criança com uma cestinha de ovos de Páscoa). O que é que você faz aqui?
Criança - (Maria com ovos) - Sou eu, borboleta Liz. Andei procurando e achei estes ovinhos de chocolate escondidos no jardim. Uma ninhada!
Borboleta - Quantos ovos! Huuuum!
Maria - São também símbolo de Páscoa!
Borboleta - Pensei, Maria,  que fossem só para festejar.
Maria - Não, borboleta Liz. Pense um pouco. Não é do ovo que nasce a vida?
Borboleta - Eu nasci de um ovinho.
Maria - A maioria dos seres vivos nascem da fecundação de um ovo. O ovo, na Páscoa, lembra o túmulo onde Jesus ficou morto por três dias. Depois, o túmulo se abre e Jesus aparece ressuscitado.
Borboleta - É por isso, Maria, que nos alegramos tanto quando ganhamos um ovo de Páscoa!
Maria - Deveria ser. Estamos lembrando de Jesus que está vivo no meio de nós!

(Todos dançam  alegres a música que segue enquanto alguém distribui ovos de Páscoa para todos ou  barrinhas de chocolate ou, ainda, pedaços de um ovo grande).

Música festiva ou canção de Páscoa - Aleluia de Haendel ou
CD Aleluia - Coral Imaculada Conceição - Paulinas Comep


Ir. Patricia Silva, fsp

segunda-feira, 4 de março de 2019

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2019


«Até a criação se encontra em expectativa ansiosa, 
aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). 

Queridos irmãos e irmãs!

Todos os anos, por meio da Mãe Igreja, Deus «concede aos seus fiéis a graça de se prepararem, na alegria do coração purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que (…), participando nos mistérios da renovação cristã, alcancem a plenitude da filiação divina» (Prefácio I da Quaresma). Assim, de Páscoa em Páscoa, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo: «De fato, foi na esperança que fomos salvos» (Rm 8, 24). Este mistério de salvação, já operante em nós durante a vida terrena, é um processo dinâmico que abrange também a história e toda a criação. São Paulo chega a dizer: «Até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Nesta perspectiva, gostaria de oferecer algumas propostas de reflexão, que acompanhem o nosso caminho de conversão na próxima Quaresma.


1. A redenção da criação

A celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação, cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 29) é um dom inestimável da misericórdia de Deus.

Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção. Por isso, a criação – diz São Paulo – deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto é, que a vida daqueles que gozam da graça do mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano. Quando a caridade de Cristo transfigura a vida dos santos – espírito, alma e corpo –, estes rendem louvor a Deus e, com a oração, a contemplação e a arte, envolvem nisto também as criaturas, como demonstra admiravelmente o «Cântico do irmão sol», de São Francisco de Assis (cf. Encíclica Laudato si’, 87). Neste mundo, porém, a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte.

2. A força destruidora do pecado

Com efeito, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz. Então sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, se atribuem aos ímpios, ou seja, a quantos não têm Deus como ponto de referência das suas ações, nem uma esperança para o futuro (cf. 2, 1-11). Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.

Como sabemos, a causa de todo o mal é o pecado, que, desde a sua aparição no meio dos homens, interrompeu a comunhão com Deus, com os outros e com a criação, à qual nos encontramos ligados antes de mais nada através do nosso corpo. Rompendo-se a comunhão com Deus, acabou por falir também a relação harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente, onde estão chamados a viver, a ponto de o jardim se transformar num deserto (cf. Gn 3, 17-18). Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da criação, a sentir-se o seu senhor absoluto e a usá-la, não para o fim querido pelo Criador, mas para interesse próprio em detrimento das criaturas e dos outros.

Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado – que habita no coração do homem (cf. Mc 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes também do próprio – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.

3. A força sanadora do arrependimento e do perdão

Por isso, a criação tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram «nova criação»: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 17). Com efeito, com a sua manifestação, a própria criação pode também «fazer páscoa»: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). E o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal.

Esta «impaciência», esta expectativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão. Juntamente conosco, toda a criação é chamada a sair «da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). A Quaresma é sinal sacramental desta conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.

Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.

Queridos irmãos e irmãs, a «quaresma» do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens (cf. Mc 1,12-13; Is 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Mensagem para o Dia Mundial da Paz- 1º de janeiro de 2019 – Papa Francisco


“Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo” 

“Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade”, afirma o Papa em uma das passagens de sua mensagem intitulada “A boa política está ao serviço da paz”.

Cidade do Vaticano
“A boa política está ao serviço da paz” é o tema da mensagem do Santo Padre para o 52° Dia Mundial da Paz a ser celebrado em 1° de janeiro de 2019. Eis o texto na íntegra:
A boa política está ao serviço da paz
1.                  «A paz esteja nesta casa!»
Jesus, ao enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes: «Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa!” E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós» (Lc 10, 5-6).
Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz. A «casa», de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa «casa comum»: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude.
Eis, pois, os meus votos no início do novo ano: «A paz esteja nesta casa!»
2.                  O desafio da boa política
A paz parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy; é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição.
«Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35). Como assinalava o Papa São Paulo VI, «tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade».
Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade.
3.                  Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço dos direitos humanos e da paz
O Papa Bento XVI recordava que «todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. (…) Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana». Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.
A propósito, vale a pena recordar as «bem-aventuranças do político», propostas por uma testemunha fiel do Evangelho, o Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002:
Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo.


Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito. Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras.
4.                  Os vícios da política
A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio.
5.                  A boa política promove a participação dos jovens e a confiança no outro
Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa «fio-me de ti e creio contigo» na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa. «Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo».
Cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum. A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Uma tal confiança nunca é fácil de viver, porque as relações humanas são complexas. Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa. Hoje, mais do que nunca, as nossas sociedades necessitam de «artesãos da paz» que possam ser autênticos mensageiros e testemunhas de Deus Pai, que quer o bem e a felicidade da família humana.
6.                  Não à guerra nem à estratégia do medo
Cem anos depois do fim da I Guerra Mundial, ao recordarmos os jovens mortos durante aqueles combates e as populações civis dilaceradas, experimentamos – hoje, ainda mais que ontem – a terrível lição das guerras fratricidas, isto é, que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade. Por esta razão, reiteramos que a escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.
O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos. No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados. O testemunho daqueles que trabalham para defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o futuro da humanidade.
1.                  Um grande projeto de paz
Celebra-se, nestes dias, o septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada após a II Guerra Mundial. A este respeito, recordemos a observação do Papa São João XXIII: «Quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão da sua dignidade; nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos».
Com efeito, a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:
–          a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando «um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura aos outros»;
–          a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado…, tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;
–          a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.
A política da paz, que conhece bem as fragilidades humanas e delas se ocupa, pode sempre inspirar-se ao espírito do Magnificat que Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, canta em nome de todos os homens: A «misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (…), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre» (Lc 1, 50-55).

Vaticano, 8 de dezembro de 2018.
FRANCISCUS